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Charadas e Respostas - Hilko Drude

7/20/2017

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​Este post foi publicado originalmente por Hilko Drude aqui e refere-se ao movimento Lady Lúdica.

Charadas e Respostas

Meu post de hoje começa com uma charada. O que as seguintes capas destes jogos têm em comum? Eu estou me referindo somente às imagens e não a alguma informação sobre as editoras ou aos/às ilustradores/as.


​​E aí? Descobriram? Isso. As mulheres estão, para não dizer outra coisa, subrepresentadas. É claro que existem vários outros exemplos contrários, mas quem acha que estou sendo tendencioso por ter escolhido estes jogos pode olhar em sua própria prateleira para checar a parcela de representatividade feminina. Ou, então, simplesmente ler este artigo, que mostra que jogos com uma ovelha na capa têm mais chances de sucesso do que jogos com mulheres (humanas).

Mas por que as coisas são assim? Certo, muitos jogos abordam temas que tradicionalmente estão conectados a assuntos masculinos: guerra, aventura, espaço sideral etc. Mas, inclusive, nos jogos que não possuem estas temáticas as coisas não parecem melhores (O jogo ‘Istambul’, que goza de bastante popularidade, acabou, infelizmente, ficando conhecido por ter 82 homens e nenhuma mulher representada, o que não se justifica a não ser que estejamos tratando de um jogo sobre a invasão da Normandia). Estamos falando aqui de um público-alvo de homens que deve ser atendido ou será este público-alvo masculino porque a oferta existente está pensada para homens? Naturalmente, uma coisa alimenta a outra.

As manifestações extremas de sexismo não são tão presentes na minha vida pessoal. Eu sei que existem campanhas de Kickstarter que são um sucesso automático quando aparecem algumas miniaturas de mulheres seminuas, mas estes não são necessariamente os jogos que eu costumo jogar seja em lojas, convenções ou nos grupos em que eu faço parte. Eu acompanho estes jogos quase somente pela internet (lugar em que a maioria das discussões sobre o tema acontecem). O domínio masculino na Internet é ainda maior do que na vida real (segundo uma pesquisa de 2013, somente 7,7% dos usuários do boardgamegeek são mulheres e ainda existe uma parcela de homens ali defendendo que esta porcentagem é muito alta). No entanto, tanto em convenções, quanto dentro de editoras ou entre autores de jogos as mulheres estão em minoria. E eu tenho a impressão de que isso não mudará tão depressa. Pois, apesar do desenvolvimento da cena nos últimos anos mostrar um caminho positivo, ainda são comuns as histórias de discriminação e de cafajestices com as mulheres. Nos Estados Unidos, parece haver muitas pessoas que não entram em certas lojas de jogos por estas serem frequentadas por homens com histórico de discriminação. Apesar de eu, por sorte, não conhecer isto em Göttingen (o que talvez possa ser explicado porque as lojas daqui também são lojas de brinquedos), ouve-se aqui e ali histórias deste tipo, o que faz com que estes não sejam casos isolados.

Uma pesquisa sobre as motivações dos jogadores e das jogadoras de tabuleiro concluiu que a categoria Gênero tem mais influência no perfil dos jogadores do que a categoria Idade. Este resultado contrastou com os jogos de Vídeo-game, nos quais a relação parece ser oposta.

O que se pode fazer para que mulheres sintam-se bem recebidas na Cena dos Boardgames? Não se pode, provavelmente, transformar tudo de uma vez, mas deve-se começar por algum lado. O projeto Lady Lúdica, uma iniciativa do Rio de Janeiro, está mostrando que isso é possível e que há demanda para isso. O projeto é gerenciado por cinco mulheres que organizaram um pequeno encontro de jogos de tabuleiro cuja audiência alcançou uma participação feminina de 44%. Este resultado é raro até mesmo nas convenções tradicionais na Alemanha. Como elas conseguiram tudo isso? Aparentemente com duas decisões. Primeiro, a equipe organizadora seria formada somente por mulheres. Segundo, os sorteios de jogos seriam somente para as mulheres presentes. Isto foi suficiente para gerar uma proporção quase igualitária (em um país em que esta proporção ainda é mais desbalanceada do que na Alemanha). Desta maneira, a Lady Lúdica trouxe visibilidade para o problema e, ao mesmo tempo, propôs uma solução para ele.

Imagem

​
Eu considero esta abordagem muito boa. Acho, inclusive, que seria preguiça intelectual considerar que o sucesso do evento se deveu ao sorteio destinado às mulheres. Naturalmente, é sempre um incentivo quando há algo grátis sendo sorteado. Eu acredito, no entanto, que o fato da organização ser realizada por mulheres seja, no mínimo, tão importante quanto o sorteio para entender o sucesso da empreitada. Pois isto cria um sentimento de segurança contra comportamentos indesejados, o que, certamente, é buscado por muitas jogadoras. Ao final, o evento acabou recebendo um bom Feedback. Lady Lúdica deve se tornar um evento bimestral (a segunda edição já ocorreu e foi tão bem sucedida quanto a primeira), e já existem planos para realizar estes eventos em outras cidades (a próxima será em São Paulo). Eu estou muito curioso para ver como o projeto se desenvolverá e acredito que esta iniciativa poderá se tornar um belo exemplo para jogadoras em outros países

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